12 de julho de 2019

Bolão da Morte - 2019

É com muito orgulho que o Só Mais Um Blog este ano hospeda a XXVIII edição do famigerado Bolão da Morte. Para quem não sabe (os que já sabem podem pular as próximas 6 linhas), o Bolão da Morte é um jogo de apostas que consiste em tentar prever quem, de uma lista de 100 nomes, morrerá até o final do ano. Os nomes são de políticos, celebridades, escritores, esportistas e outros famosos.
Cada apostador pode escolher no máximo 20 nomes. As apostas podem ser feitas a qualquer momento do ano, mas serão encerradas imediatamente no dia em que morrer alguém da lista. Para valer, as apostas devem ser postadas nos comentários deste post.

Vamos aos nomes do Bolão da Morte 2019!
1-      Woody Allen
2-      Luis Fernando Verissimo
3-      Papa Francisco
4-      Jair Bolsonaro
5-      Sergio Moro
6-      Lula
7-      Jack Nicholson
8-      Tom Cruise
9-      Madonna
10-   Paul Auster
11-   Barack Obama
12-   Bill Clinton
13-   Tarcísio Meira
14-   Tom Waits
15-   Caetano Veloso
16-   Chico Buarque
17-   Gilberto Gil
18-   Sean Penn
19-   Michael Douglas
20-   Kirk Douglas
21-   Vanessa Redgrave
22-   Jim Carrey
23-   Casagrande
24-   Galvão Bueno
25-   FHC
26-   Vladimir Putin
27-   Nelson Piquet
28-   Emerson Fittipaldi
29-   Willy Nelson
30-   Pelé
31-   Rainha Elizabeth
32-   Elton John
33-   Tom Hanks
34-   Keith Richards
35-   Mick Jagger
36-   Silvio Santos
37-   Michel Temer
38-   Gilberto Alckmin
39-   Agnaldo Timóteo
40-   Bill Cosby
41-   Al Pacino
42-   Fernanda Montenegro
43-   Christopher Walken
44-   Julio Iglesias
45-   Mike Tyson
46-   OJ Simpson
47-   Bill Murray
48-   Moreira Franco
49-   Robert De Niro
50-   Meryl Streep
51-   David Letterman
52-   Roger Waters
53-   Sylvester Stallone
54-   William Bonner
55-   Liza Minelli
56-   Francis Ford Coppola
57-   José Sarney
58-   Tony Ramos
59-   Renato Aragão
60-   Olavo de Carvalho
61-   Jerry Seinfeld
62-   Gloria Menezes
63-   Milton Nascimento
64-   Julie Andrews
65-   Tony Bennett
66-   Demi Lovato
67-   Paul McCartney
68-   Ringo Starr
69-   Eric Clapton
70-   Bruce Springsteen
71-   Bob Dylan
72-   Ian McEwan
73-   Liam Neeson
74-   Jerry Lee Lewis
75-   Dolly Parton
76-   Cher
77-   Julian Assange
78-   Donald Trump
79-   Christopher Plummer
80-   Maggie Smith
81-   Robert Redford
82-   Quentin Tarantino
83-   Martin Scorsese
84-   Michael Caine
85-   Mino Carta
86-   Glenn Close
87-   Sean Connery
88-   Michael Schumacher
89-   Alan Arkin
90-   Russel Crowe
91-   Judi Dench
92-   Morgan Freeman
93-   Clint Eastwood
94-   Emma Thompson
95-   Ozzy Osborne
96-   Helen Mirren
97-   Lindsay Lohan
98-   Eduardo Suplicy
99-   Paulo Maluf
100-                      Zé Celso Martinez



4 de junho de 2019

Melhores livros de 2018

Aqui vai, mais uma vez, e com certo atraso, a minha lista dos melhores livros de 2018. Não, não se trata de livros lançados em 2018; são os livros que eu li em 2018, sejam lá de que ano forem. Também não espere críticas literárias teoricamente embasadas e profundas, o que escrevo aqui são apenas opiniões pessoais sobre minhas leituras durante o ano. Aqui segue meu ranking.
Ficção
5º Lugar
Doze Contos Peregrinos
Autor: Gabriel García Márquez
Editora: Record
Morto em 2014, García Márquez é um Nobel de literatura, um dos mais famosos escritores da América Latina e respeitado por todos (exceto por outro Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, que já lhe acertou um murro na cara). Assim, cada nova leitura de uma obra do autor do clássico “Cem anos de solidão” é recheada de muita expectativa. Talvez por isso mesmo tenha me decepcionado um pouco. Os contos do livro são em sua maioria medianos, também pudera, o livro não é o resultado de um projeto de contos com unidade temática (tão exigida pela crítica de hoje), e sim uma compilação de contos ou ideias para contos que o autor anotou em um caderno ao longo de algumas décadas. A exceção é o ultra-angustiante “Só vim telefonar”. Abaixo, um trecho:
“O ônibus havia entrado no pátio empedrado de um edifício enorme e sombrio que parecia um velho convento num bosque de árvores colossais. As passageiras, iluminadas apenas por um farol do pátio, permaneceram imóveis até que a mulher de aspecto militar as fez descer com um sistema de ordens primárias, como em um jardim de infância. Todas eram mais velhas, e moviam-se com tal parcimônia na penumbra do pátio que pareciam imagens de um sonho. Maria, a última a descer, pensou que eram freiras. Pensou menos quando viu várias mulheres de uniforme que as receberam na porta do ônibus, e cobriam suas cabeças para que não se molhassem, e as colocavam em fila indiana, dirigindo-as sem falar com elas, com palmas rítmicas e peremptórias. Depois de se despedir de sua vizinha de assento, Maria quis devolver-lhe a manta, mas ela falou que cobrisse a cabeça para atravessar o pátio e que a devolvesse na portaria.– Será que lá tem telefone? – perguntou Maria.”
4º LugarPedaços de um Caderno Manchado de VinhoAutor: Charles Bukowski
Editora: L&PM Editores
Todos sabemos que Bukowski repete seus temas à exaustão. Relatos autobiográficos de brigas, bebedeiras, mulheres,desprezo pelo mundinho dos escritores e poetas. Mas seria injusto dizer que ele é só isso. Esse americano nascido na Alemanha também é um excelente observador da condição humana, com uma visão invariavelmente sarcástica e pessimista sobre as pessoas, mas também delicada e, no fundo, mas bem no fundo mesmo, esperançosa. Um dos melhores textos do livro é “Eu conheço o mestre”, em que ele fala do seu encontro com seu herói literário, John Fante. Abaixo, um trechinho desse texto:
“Eu escrevia e bebia à noite. Durante o dia eu ficava na Biblioteca Pública de LA e lia todos os escritores e era uma leitura difícil, os escritores usavam parágrafos longos e páginas de descrição, construindo a trama e desenvolvendo os personagens, mas os personagens não eram nada interessantes e o que as histórias finalmente revelavam não era lá grande coisa. Pouco se dizia das vidas desperdiçadas da maioria das pessoas, da tristeza, de toda tristeza, da loucura, da risada vencedora da dor. Boa parte dos escritores escrevia sobre as experiências da vida da alta classe média. Precisava ler algo que me ajudasse a atravessar o dia, a rua, algo em que pudesse me agarrar. Precisava me embebedar de palavras, em vez disso me via obrigado a apelar à garrafa. Eu sentia, suponho, como todos os escritores fracassados sentem, que eu realmente podia escrever e que as circunstâncias e os que governam e a política estavam contra mim. Às vezes estão; outras vezes você apenas acha que pode escrever quando na verdade não pode.”
3º LugarMeia-noite e vinteAutor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Galera só entrou nesta lista porque, digamos, já tem um histórico de serviços prestados à literatura brasileira do século XXI. O autor do forte e dramático Barba ensopada de sangue dessa vez preferiu baixar o tom, escrevendo um livro mais morno, mais ameno, talvez, também, mais pretensamente filosófico, com temas raramente abordados em suas obras anteriores (homossexualidade, internet, literatura). É possível dizer que é seu livro mais porto-alegrense também, pois é repleto de referências à cidade onde foi criado.
Abaixo, um trecho do livro:
“Sei lá”, ela continuou, com uma entonação tristonha, “isso que aconteceu com o Duque me deixou uma sensação de que já acabou.”
“Já acabou o quê?”
“Tudo! Vocês não têm andado nas ruas? Porto Alegre parece uma galinha sem cabeça correndo pelos últimos minutos no quintal. Em São Paulo tem gente dizendo que vai acabar a água da cidade. Tento ser cautelosa quando leio sobre mudança climática, radioatividade, extinção em massa. Mas parece que ontem eu tomei um tapa na cara.”
Eu a interrompi de maneira um pouco ríspida, dizendo que um grande amigo nosso tinha morrido de forma estúpida e aleatória por causa da miséria que havia acompanhado a raça humana desde sempre, e que não tinha nada de novo nisso. Não tinha a ver com o aquecimento global ou com o fim do mundo. Apenas um mundo havia acabado, e era o mundo de Andrei. Esse mundo somente ele conheceu. Mas ele havia se esforçado pra compartilhá-lo da única maneira que estava a seu alcance, a literatura, esforço que o consumia quase às raias de um autismo social. E a moral da história naquilo era o prevalecimento do que nos fazia humanos, incluídos o medo da morte e o medo do apocalipse. Era o compartilhamento e a propagação desses e de todos os outros sentimentos e valores, não importava quão fodidos estivéssemos nós ou o mundo, sempre na direção daquela unidade ideal em que todas as vidas se apagavam somente pra se encontrarem, o nosso acesso às demais vidas, a entrega que nos permitia alcançar uma dissolução em vida no lugar de uma dissolução na morte, que de todo modo viria cedo ou tarde mas que não deveria chegar aos trinta e seis anos com um tiro na cabeça por causa de um telefone celular.”
2º Lugar
Are You Experienced?
Autor: William Sutcliffe
Editora: Penguin
Are You Experienced? Só ficou na vice-liderança pois o primeiro lugar era imbatível. O romance desse autor escocês, infelizmente ainda inédito no Brasil (alô, editoras corajosas!), é de um raro humor. Expor a sinopse do livro não ajuda muito a promovê-lo: “jovem viaja pela Índia com a namorada do amigo, por quem está apaixonado” (ambiguidade detectada: ele está apaixonado pela moça, não pelo amigo). O que não aparece na sinopse são os ótimos diálogos, principalmente as falas ácidas de David, o protagonista e narrador em primeira pessoa, um observador cético da bicho-grilice dos jovens mochileiros europeus que vão para a Índia para “se encontrar” e estimular sua espiritualidade; os bem construídos e vívidos personagens que cruzam o seu caminho. No início da leitura, o livro pode parecer até superficial e pueril, mas vai se revelando uma obra refinada, mesmo quando trata de diarreias, vômitos e outras tosquices; um Bildungsroman (usei essa palavra alemã para parecer que entendo alguma coisa de literatura) aparentemente despretensioso num texto bem-acabado e que flui com leveza e descontração. Poucas vezes na vida chorei de rir lendo um romance, mas ressalto: no contexto da história, nada é engraçado (pelo contrário), nenhum personagem ri ou se diverte, o humor fica por conta do talento de Sutcliffe. Bônus: é a melhor capa do ano.


1º Lugar
O Segredo Dos Seus Olhos
Autor: Eduardo Sacheri
Editora: Suma de Letras
Todos nós já assistimos o filme argentino “O segredo dos seu olhos”, de Juan José Campanella (se você não viu, pare de ler isso e vá correndo assistir, e só depois volte aqui) baseado no livro homônimo de Eduardo Sacheri. Claro que há o clichê de que “o livro é sempre melhor do que o filme”, mas, nesse caso, tratando-se de um filme que já era bom, fiquei reticente, adiando a leitura do livro por anos, com medo de que pudesse me decepcionar. Mas não foi o que aconteceu, acabei me surpreendendo com o livro, que consegue ser mais forte e mais dramático do que o filme; também há espaço para explorar o contexto histórico muito mais do que no filme, e a ditadura argentina ganha lugar de destaque na obra. Li o livro já sabendo do “final surpreendente”. Mas me surpreendi, pois o final do livro é diferente do final do filme.
Hesitei em colocar trechos do livro aqui, pois nenhum vai ser exemplar da obra, que se engrandece mesmo é no seu conjunto. Mas aqui vão alguns:
“Acho que foi por observá-lo que desenvolvi minha teoria de que os estúpidos se conservam melhor fisicamente porque não são corroídos pela ansiedade existencial à qual as pessoas mais ou menos lúcidas se veem submetidas. Não tenho provas conclusivas a respeito, mas o caso de Fortuna Lacalle sempre me pareceu de uma nitidez evidentíssima.”
“Agora é ela quem o olha divertida, ou terna, ou nervosa, e finalmente pergunta: — Vai me dizer o que você tem, Benjamín? Chaparro se sente morrer, porque acaba de notar que essa mulher está perguntando uma coisa com os lábios e outra com os olhos: com os lábios pergunta por que ele ficou corado, por que se remexe nervoso no assento ou por que a cada doze segundos espia o alto relógio de pêndulo que decora a parede próxima à biblioteca; mas, além de tudo isso, com os olhos ela pergunta outra coisa; pergunta nem mais nem menos o que está lhe acontecendo, o que está acontecendo a ele, a ele com ela, a ele com eles dois; e a resposta parece interessá-la, ela parece ansiosa por saber, talvez angustiada e provavelmente sem compreender se o que está acontecendo a ele é o que ela supõe estar acontecendo a ele. Pois bem — reflete Chaparro —, o problema é se ela o supõe, teme ou deseja, porque essa é a questão, a grande questão da pergunta que lhe formula com o olhar, e Chaparro de repente entra em pânico, levanta-se como um doido e diz que precisa ir, que ficou tardíssimo; ela se levanta, surpreendida — mas o problema é se surpreendida e ponto, ou surpreendida e aliviada, ou surpreendida e desencantada —, e Chaparro praticamente foge pelo corredor para o qual dão as altas portas de madeira dos escritórios, foge sobre o tabuleiro de ladrilhos pretos e brancos dispostos como losangos, e só recupera o fôlego quando entra num 115 miraculosamente vazio no horário de pico do entardecer; volta à sua casa de Castelar, onde os últimos capítulos de sua história esperam ser escritos, haja o que houver, porque ele já não tolera a situação, não a de Ricardo Morales e Isidoro Gómez, mas a própria, a que o une até destroçá-lo com essa mulher do céu ou do inferno, a mulher enterrada até o fundo de seu coração e de sua cabeça, a mulher que a distância continua perguntando o que está acontecendo a ele, com os olhos mais bonitos do mundo.”
Não ficção
5º LugarO Caderno VermelhoAutor: Paul Auster
Editora: Companhia das Letras
Um dos poucos livros de não ficção do americano Paul Auster. Consiste numa série de historietas reais, cujas fontes são o autor e conhecidos dele, sobre coincidências. Às vezes soam até um tanto bobinhas, mas a narrativa simples e fluida de Auster é sempre prazerosa de ler.
Trecho:
“Dentro, havia uma carta datilografada em espaço simples que começava assim:“Caro Robert, em resposta à sua carta datada de 15 de julho de 1989, só posso dizer que, como outros autores, frequentemente recebo cartas relativas à minha obra’. Em seguida, num estilo bombástico e pretensioso, coalhado de citações de filósofos franceses e impregnado por um tom de vaidade e autocomplacência, o autor da carta passava a elogiar ‘Robert’ pelas ideias que ele havia desenvolvido a respeito de um dos meus romances num curso de faculdade sobre o romance contemporâneo. Era uma carta desprezível, o tipo de carta que eu jamais sonharia em escrever para ninguém, e no entanto estava assinada com o meu nome. A caligrafia não se parecia com a minha, mas isso não era um grande consolo. Existia alguém em algum lugar tentando se passar por mim, e, até onde eu sei, ainda existe.”
4º Lugar
A Vítima Tem Sempre Razão?
Autor: Francisco Bosco
Editora: Todavia
Todo mundo evita apresentá-lo como “filho do João Bosco”. Mas a verdade é que ele próprio assumiu essa condição, pois seu nome de batismo é Francisco de Castro Mucci, e ele optou por colocar o “Bosco” no seu nome de autor. Nesta obra, compositor e filósofo de 42 anos corajosamente nada contra a corrente das mais recentes manias da esquerda nacional, como o identitarismo e o linchamento virtual. Ele traz, na verdade, uma visão que já está bem desenvolvida entre pensadores e intelectuais dos EUA e da Europa, que é a crítica dos movimentos identitários, principalmente da forma que eles vêm escolhendo para se manifestar. Mesmo que seja bastante moderado, se comparado aos americanos e europeus, depois do lançamento da obra, o autor recebeu dezenas de críticas, em geral bastante reducionistas (como, por exemplo, a de ser um “macho branco classe média” [mesmo que tenha ascendência libanesa]). A voz de Bosco é uma das poucas da esquerda que ousa fazer a crítica da esquerda no Brasil.
3º Lugar
Brasil, um país do futuro
Autor: Stefan Zweig
Editora: L&PM
Tanto na época do seu lançamento, na década de 1940, até hoje, Brasil, um país do futurofoi visto com desconfiança por estrangeiros e brasileiros. Seus críticos acusam o alemão Stefan Zweig de ter pintado um retrato romântico demais do Brasil e dos brasileiros, seria um tanto idealizado e até ufanista, perdendo seu valor como documento histórico. Mas é justamente o olhar estrangeiro sobre o país que torna o livro atraente. Além de contextualizar o Brasil desde o início da sua história, Zweig faz uma crônica de cidades como Rio de Janeiro, São Paulo (sobre a qual diz, acertadamente: “Não é uma cidade para ser vista”), Recife e muitas outras capitais. É curioso ver como algumas de suas observações, mesmo tendo sido feitas há quase 80 anos, ainda permanecem atuais, como esta, logo no início do livro: “Quem chega pela primeira vez ao país, terá que primeiramente adaptar-se, na vida quotidiana, a pequenas faltas de pontualidade e inexatidões, a certa deficiência de energia”. Há momentos também em que sua admiração pelo país o faz pisar na bola feio: “Em nenhum outro país os escravos foram tratados relativamente com mais humanidade” ou “E hoje, que o Governo é considerado como ditadura, há aqui mais liberdade e mais satisfação individual do que na maior parte dos nossos países europeus”. Outras das suas observações também não sobreviveram ao tempo, como esta: “O ódio entre as classes e o ódio entre as raças, essas plantas venenosas da Europa, ainda não criaram raízes aqui. Essa extraordinária delicadeza de sentimentos, essa ausência de preconceitos, essa boa fé, essa boa índole e essa incapacidade de ser brutal do brasileiro acompanham-se duma sensibilidade muito grande e talvez excessiva. Não só muito sentimental, mas também sensível, todo brasileiro possui um sentimento de honra muito suscetível e todo especial.” Por mais enviesada que seja a sua visão, Stefan Zweig escreveu um livro que não deixa de ser um retrato de uma época.
2º Lugar
Justiça – O que é fazer a coisa certa
Autor: Michael J. Sandel
Editora: Civilização Brasileira
Estamos em uma época em que um livro como Justiça – O que é fazer a coisa certa, de Michael Sandel, é uma necessidade, senão uma obrigação. A obra é a versão escrita de um curso que o autor leciona na Universidade de Harvard, trata de filosofia moral nas suas bases, mas sempre aplicando a teoria filosófica (de autores como Kant, Bentham e John Rawls) em exemplos de situações reais do mundo contemporâneo. Mostra de maneira clara e didática, sem deixar de ser abrangente e profunda, como podemos pensar e aplicar a ética prática nas nossas vidas. Assim, traz questões como “Devemos dar cotas para negros nas universidades?”, “Posso aumentar os preços das minhas mercadorias em situações de desastre?”, “O governo deveria taxar os ricos para ajudar os pobres?”, “Tortura pode ser justificável?”. Também entra em assuntos como abroto, serviço militar obrigatório, patriotismo e muitos outros.
Trecho do livro:
“Durante os anos 1970, o Ford Pinto era um dos carros compactos mais vendidos nos Estados Unidos. Infelizmente seu tanque de combustível estava sujeito a explodir quando outro carro colidia com ele pela traseira. Mais de quinhentas pessoas morreram quando seus automóveis Pinto pegaram fogo e muitas mais sofreram sérias queimaduras. Quando uma das vítimas processou a Ford Motor Company pelo erro de projeto, veio a público que os engenheiros da Ford sabiam do perigo representado pelo tanque de gasolina. Mas os executivos da companhia haviam realizado uma análise de custo e benefício que os levara a concluir que os benefícios de consertar as unidades (em vidas salvas e ferimentos evitados) não compensavam os 11 dólares por carro que custaria para equipar cada veículo com um dispositivo que tornasse o tanque de combustível mais seguro. Para calcular os benefícios obtidos com um tanque de gasolina mais seguro, a Ford estimou que em um ano 180 mortes e 180 queimaduras poderiam acontecer se nenhuma mudança fosse feita. Estipulou, então, um valor monetário para cada vida perdida e cada queimadura sofrida — 200 mil dólares por vida e 67 mil por queimadura. Acrescentou a esses valores a quantidade e o valor dos Pintos que seriam incendiados e calculou que o benefício final da melhoria da segurança seria de 49,5 milhões de dólares. Mas o custo de instalar um dispositivo de 11 dólares em 12,5 milhões de veículos seria de 137,5 milhões de dólares. Assim, a companhia chegou à conclusão de que o custo de consertar o tanque não compensaria o benefício de um carro mais seguro.”
1º Lugar
Sapiens – Uma breve história da humanidadeAutor: Yuval Noah Harari
Editora: L&PM
Foi um best-seller mundial? Sim. Virou modinha? Sim. É uma unanimidade? Provavelmente. E por isso mesmo fui ler Sapiens – Uma breve história da humanidade com os dois pés atrás. Didático e simples sem ser superficial ou simplório. Resumir a história da humanidade em cerca de 500 páginas é uma tarefa hercúlea. Mas o historiados israelense Yuval Noah Harari faz isso com extrema competência ao retratar a humanidade como ela é, e explicar como e por que vivemos como vivemos. Não vou colocar trechos do livro, pois ele inteiro vale a pena.

Graphic Novel
1º Lugar
Pílulas Azuis
Autor: Frederik Peeters
Editora: Nemo
Li poucas graphic novels em 2018, de modo que o 1º Lugar na lista não chega a ser excelente. Mas Pílulas Azuis, do belga Frederik Peeters, aparece aqui por ter contado a história do encontro do próprio autor com a sua mulher e a revelação de que ela e o filho tinham o vírus da Aids. A partir daí, o leitor acompanha as dificuldades e descobertas do autor diante desse mundo.
Também merecem menção honrosa nesta categoria Frango com Ameixas e Bordados, ambos da iraniana Marjane Satrapi, autora do excelente Persépolis.
Bônus
Me Talk Pretty One DayAutor: David Sedaris
Editora: Back Bay Books
Se há um autor que merece mais reconhecimento no Brasil, ele se chama David Sedaris. Este livro só aparece em separado das outras listas porque não consegui classificá-lo em nenhum gênero literário, mesmo os extremamente abrangentes “ficção” e “não ficção”. Ele não poderia entrar em ficção pois seus relatos/crônicas/contos são declaradamente autobiográficos. Mas a qualidade dos textos é somente comparável a dos melhores ficcionistas, então também não pareceria certo colocar um livro onde há drama, humor, ironia fina, comentário social ao lado de livros sérios de filósofos e historiadores. Não porque Sedaris esteja abaixo deles, muito pelo contrário, esse autor norte-americano radicado no interior da França é uma das poucas pessoas vivas que indubitavelmente merece o adjetivo “genial”. Procurem lê-lo e depois me digam se eu não estava certo.

Fogueira dos extremos

Alguns maledicentes poderão dizer que esta crônica é sobre os meandros da vaidade humana. Nada disso, é apenas um relato voltado prioritariamente para o mundo corporativo, visando apresentar técnicas de vendas que otimizem os lucros num mercado competitivo. Ou não. Os dois casos aconteceram comigo em Porto Alegre na última semana.Allisvanitycolor
  1. Numa calçada do bairro Moinhos de Vento, a moça, de prancheta na mão, tenta abordar várias pessoas, nenhuma para ou olha para ela. Eu paro e ouço. Ouço muito. É da Médicos Sem Fronteiras, quer que eu salve as crianças que vão morrer desnutridas se eu não fizer alguma coisa agora mesmo. Como não sou médico, só um cidadão comum sem superpoderes, o que eu posso fazer de mais concreto é debitar uma quantia mensal no meu cartão de crédito.
    A moça diz: “Sabe, eu acredito numa coisa, o bem que gente faz volta pra gente depois. Então, se ajudar essas crianças, tenho certeza de que isso vai voltar pra ti de alguma forma”.
    Respondo: “Isso tá me parecendo aquela coisa católica de fazer caridade pra garantir um lugar no céu”.
    Ela: “Não, não! Não é isso! Também não acredito em garantir um lugar no céu!”.
    A coisa toda parece legítima, a moça usa um colete da MSF, crachá de plástico novinho, tem um tablet com um programa todo bacanudo, folders bonitos e até ímã de geladeira da MSF. Me sinto culpado, afinal, minha mãe me chantageava com as “crianças passando fome na Etiópia” toda vez que eu deixava comida sobrar no prato; eu as ignorei por décadas, e agora estão aqui, clamando por meu cartão de crédito. Então aceito me endividar.
    Ela começa a preencher o meu cadastro no tablet. Cep, telefone, endereço, etc. Aí vem: “Data de nascimento, começando pelo ano”. Digo “setenta e seis”. Ela gira os numerozinhos no tablet até “56”. E eu: “Não! 76! Tu acha que eu tenho 62 anos?!”
    Ela: “Não, não, claro, desculpa!”.
    Eu: “Eu acabei de voltar da psicóloga, tenho toda uma dificuldade de aceitação da idade e do envelhecimento, e agora tu acha que eu tenho 62?! Acabou com todo o trabalho dela”.
    Ela: “Não, claro que não, me confundi. É 76, então?”.
    Eu: “Acho que tu não entendeu. Tu acabou de destruir o meu dia”.
  2. Outra rua, outro bairro, mulher de prancheta na mão:
    “Ah, vou te abordar também. Estamos com uma campanha pro Orfanato São João, estou vendendo essas canetas e chaveiros, se puder ajudar”. Fico logo com uma pulga atrás da orelha. Na prancheta, um papel encardido cheio de nomes rabiscados, presumivelmente outros benfeitores.
    Eu: “Qual o nome desse orfanato?”.
    Ela: “Orfanato São João”.
    Eu: “E onde fica esse orfanato?”
    Ela: “Em Alvorada, são crianças em situação de rua.
    Eu: “Em situação de rua? Mas não estão no orfanato?”
    Ela: “Elas vão ficar na rua se o orfanato fechar por falta de dinheiro”.
    Minha pulga atrás da orelha fica com um pé atrás. Percebendo minha desconfiança, ela faz um gesto largo e diz sorrindo: “Eu sou a Janete, tô sempre por aqui, todo mundo aqui me conhece”, o que meu cérebro automaticamente traduz como “Nunca passei por essa rua antes, portanto ninguém aqui me conhece”.
    Mas penso no meu hipotético lugarzinho no céu, quem sabe com mais esse desapego monetário consigo um com sacada gourmet. Apesar de ateu, vai quê, né? Dou um capstar pra pulga e digo que vou levar uma caneta, que, mais cedo ou mais tarde, me será útil.
    Ela estende a mão para o meu rosto e me fala, com os olhos brilhando:
    “Ahhh, agora estão usando assim, gosto muito”.
    Eu demoro alguns segundos até entender que ela se refere ao amontado de pelos desordenados que crescem no meu rosto feito erva daninha depois de 8 meses sem ver uma gilete. Digo:
    “Ah, isso aqui é só relaxamento mesmo”.
    Ela: “Que nada, fica muito bem em ti!”.
    Eu: “Me dá três canetas”.
    Ela: “Fica um gato, na verdade!”.
    Eu: “Me vê cinco logo, assim não precisa me dar troco”.
    Ela: “Ah, que bom que me ajudou, brigada mesmo, meu tesão”.
Se alguém estiver precisando de chaveiro, eu tenho uma dúzia sobrando aqui em casa.
Crédito da imagem: C. Allan Gilbert
*texto originalmente publicado na Revista Entrementes

9 de janeiro de 2018

Melhores (e piores) livros de 2017


Finalmente chegou o momento mais esperado do ano (esperado por mim, apenas): o glamoroso ranking dos melhores e piores livros do ano (isto é, lidos por mim em 2017). Dos 36, esses são os grandes campeões e perdedores.




Ficção:

1º The Beach 
O ótimo romance do diretor e roteirista de Ex-Machina não é inovador, mas é diferente de tudo que você já leu.

2º Pureza
Jonathan Franzen continua nas suas tentativas bem-sucedidas de retratar o zeitgeist de cada época em romances ultra realistas.

3º Terra vermelha
O livro de estreia de Camila Serrador traz 20 contos recheados de assombro e delicadeza.

4º Enclausurado
 Humor negro e ácido nessa novela curta, narrada por um feto, do mestre Ian McEwan

5º O crime do Padre Amaro
Crítica da Igreja Católica e das hipocrisias sociais, com fino humor. Escrito há quase 150 anos, continua atual.




Não ficção:

1º Fadas no divã
Ótima análise psicanalítica de histórias infantis clássicas e contemporâneas pelo casal Diana e Mario Corso.

2º Como fazer inimigos e alienar pessoas
As memórias de Toby Young, jornalista beberrão fissurado por celebridades oi retratada de forma boba no filme de mesmo nome. Já no livro, há espaço tanto para as suas rocambolescas e constrangedoras histórias como para pequenos ensaios de crítica social, com ênfase nas diferenças entre americanos e britânicos.

3º A paisagem moral
Sam Harris tenta provar que relativismo moral é um grande erro. E consegue.

4º Romancista como vocação
Bom exclusivamente para leitores de Haruki Murakami.

5º Trinta e poucos
Nessa coletânea de crônicas, o paulista Antonio Prata prova que é bem melhor escritor que o pai dele.





Graphic Novel:

1º Maus
Impressionante e brutal relato baseado em história real de um sobrevivente de campos de concentração nazistas.


2º Persépolis
Relato autobiográfico da iraniana radicada na França. O mais assustador é ver o quanto o islamismo radical iraniano dos anos 1980 é parecido com o extremismo da esquerda e da direita brasileiras.


3º Habibi
Passeio histórico pelo mundo árabe acompanhando do início ao fim uma história triste de amor impossível.

Piores livros do ano:

1º Contos – Volume I
Os primeiros contos do consagrado Ernest Hemingway são uma aula. Uma aula de como não escrever, pois são horrorosos do início ao fim.


2º Ele está de volta
A boa premissa – Hitler reaparece na Alemanha dos anos 2010 e acaba sendo um sucesso midiático – é comprometida por uma tentativa de humor por quem não é humorista. Aliás, nem escritor o autor é. Forçado, repetitivo e meio mongoloide.


3º Paris é uma festa
Escrito quando Hemingway já era consagradíssimo, esse relato pode ter somente o (questionável) valor histórico pela tentativa (tosca) de reproduzir uma época. Mas depois de 40 anos Hemingway provou que não sabia escrever mesmo.


4º Trainspotting
Bom para os anos 1990. Hoje é uma forçação de barra inesgotável. A tradução brasileira foi triste.


5º Gratidão
Um chororô chatarrão de um tiozão moribundo.


6º Bestiário
 Minha primeira (e última) tentativa com Cortázar foi um fracasso total, e eu não quero admitir que a culpa foi minha.
E por que não seguiu o próprio conselho?


Colaboradores