8 de abril de 2013

A verdadeira história dos The Seven Boys

muito tempo tem se falado sobre os The Seven Boys, banda que teria explodido no underground porto-alegrense nos anos 90 e que teria revolucionado a cena musical na época. Com o passar dos anos, as peripécias envolvendo a banda e seus integrantes tomaram ares de lenda. Hoje em dia, existem poucas testemunhas que sobreviveram para contar a história, e por isso mesmo muita gente ainda duvida que tal grupo tenha existido, pois infelizmente não sobraram gravações ou quaisquer provas concretas da passagem do grupo sobre a Terra, cuja memória apenas sobrevive nos brados ininteligíveis de bêbados da Cidade Baixa e nos suspiros solitários de mulheres em noites de inverno. Então eu, como ex-integrante, saio da reclusão e venho aqui só para dizer: Era tudo verdade.
Show de estreia no Garagem Hermética


O Começo
Tudo começou em 1992, em Porto Alegre, no Colégio Júlio de Castilhos, mais conhecido como Julinho. A coisa nasceu mais precisamente numa sala de aula do 2º andar, durante uma massacrante aula de Física. Tejo Damasceno Ferreira, Iranói de Oliveira e Djegovsky, esses três adolescentes jamais imaginavam que estariam plantando a semente de uma revolução que mudaria a vida de muitos gaúchos para sempre.

Naquela já longínqua manhã, os três amiguinhos resolveram, excepcionalmente, não prestar atenção à aula e decidiram, do nada, criar uma banda de rock fictícia, inspirados por Spinal Tap sem nunca terem assistido ao documentário. Foram criadas minibiografias para cada um dos integrantes, foi desenhado um logo e surgiu, para sempre, um mito.


Tejo, que mais tarde cursaria Publicidade e Propaganda, começou a campanha gráfica, pichando o logo pelas paredes do colégio. Ao mesmo tempo, começou a campanha boca-a-boca entre colegas, amigos e inimigos. Em pouco tempo todos sabiam que éramos da The Seven Boys. Sim, mas e as músicas? Nenhum de nós tinha muita intimidade com instrumentos musicais, e eu estava fazendo aulas de violão no colégio, recém aprendendo a lentamente dedilhar Prenda Minha. Sentindo a pressão popular, depois de uma aula fomos para a minha casa e, nos trancamos no meu quarto munidos de um violão, um bongô, um forno de micro-ondas, um liquidificador e um gravador e gravamos aquele que seria o maior hit do verão daquele ano: A mina que eu me liguei, cujos versos imortais começavam assim "Dei um rolé pela cidade com a caranga" seguiam por "Eu tava tomando um shilk make quando ela me chamou" e  explodiam no estrondoso refrão: "Eu sei, eu sei, essa é a mina que eu me liguei". A sequência de complexos acordes G-C-G-C-Am-D deu corpo a uma pseudo-balada-surf-rock-punk-anos 60-baile da terceira idade que amolecia até os corações mais duros..



A Ascensão
Com o sucesso imediato da primeira composição, o público pediu mais. Em seguida veio o funk-rap-soul-eletro "The Book Is On The Table", cujo refrão pós-moderno-poliglota-troglodita era "Uanuariu baba, uanuariu baby, the book is on the table". E mais tarde o arrebatador metal-porrada-malvado Buceta, com uma letra minimalista-obstetrícia que quebrou paradigmas  e marcou gerações de adolescentes de cabelo na mão. A partir daí o sucesso veio a galope, atropelando nosso trio. Nenhum esforço de divulgação mais foi necessário: meninas pubescentes escreviam mensagens eróticas cheias de erros de ortografia aos músicos nas portas do banheiro, outras, como paparazzi, tiravam fotos de qualquer um dos três flagrados nas suas mais banais atividades escolares, como matar aula, comer pastelina ou vomitar na escadaria. Convites para fumar maconha na rua Laurindo, atrás do colégio, abundavam. Foi nesse ponto que um figurão emergente da cena musical porto-alegrense se interessou pelos The Seven Boys.
Fãs ensandecidas num show 

 Antônio ainda não era nacionalmente conhecido como Tonho Crocco, mas já era o vocalista da hoje consagrada banda Ultramen. Tonho ouviu a fita com três músicas e deu seu parecer: Inacreditável! Convidou o trio a tocar no Garagem Hermética, mas com uma condição: teria que tocar (baixo) junto. Numa noite fria em que tocava também a Walverdes, os The Seven Boys fizeram a sua estreia oficial num palco, tocando para uma casa lotadíssima repleta de doidos pulantes.   No meio do show, a correia da guitarra arrebentou e Djegovsky teve que terminar tocando em cima de um banquinho (estilo bossa nova) o hit destruidor Buceta, cuja letra, para surpresa da banda, foi logo decorada pela plateia, que cantava ensandecida. Há relatos de que existiriam fotos desse show. Se houver, os negativos hoje valem milhões de reais. Eles compunham músicas ótimas com refrões cativantes que faziam a alegria da família alternativa brasileira, mas era mesmo nos shows, com suas performances arrasadoras, que a banda conquistava fãs, que enlouqueciam cada vez mais a cada encontro com seus ídolos.

Noite normal nos camarins dos TSB


A criatividade do grupo não parava mais. Sua nova casa era o estúdio do Frank Solari, e o trio passou a contar com banda de apoio, com Tonho Crocco no baixo e um excelente baterista de hair metal (cujo nome infelizmente não recordo agora). A essa altura, mesmo com poucos meses de vida, The Seven Boys já fazia escola nos porões sujos do submundo alternativo do underground da cidade, influenciando outras bandas, que se espelhavam na irreverência das letras, na criatividade das músicas e na megalomonia dos seus membros, o que gerou uma onda de bandas com nomes engraçadinhos, como Tarcisio Meira's Band, Ploc Monster, Churriu,  Tomate-Cereja, Chulé de Coturno e outras. Outras canções foram compostas, como a surf-music Sulf, a hard-rock-poser-com-vocal-intergaláctico Que coisa mais linda e a rock-gaudéria-apoteótica O Jovem que pastoreia o gado. O novo repertório foi apresentado ao público no show mais aguardado do ano, no palco da escola de música Prediger. Num auditório absurda e perigosamente lotado, jovens pularam, se sacudiram, gritaram, caíram no chão (e alguns não levantaram mais) enquanto se entorpeciam com o som de hits espetaculares que arrebentavam os alto-falantes. Quando o povo já pedia o segundo bis, a direção do local achou por bem encerrar o concerto, simpaticamente desligando a luz do palco. Mas não era somente no palco que a energia se esgotava.

A Queda
Agora já com um fã-clube consolidado, chamado Flã-Cube The Seven Boys, o sucesso começava a subir à cabeça dos membros. Uma reunião com uma relações públicas das bisnaguinhas Seven Boys foi feita, com toda a seriedade, em busca de patrocínio (o que naturalmente acabou não ocorrendo). Os ensaios para criações de novas músicas, precedidos pelo consumo cada vez mais frequente de drogas pesadas, como maconha, cerveja e lança-perfume, acabavam sendo infrutíferos.  Djegovsky, recém saído da reabilitação depois ter ido parar no hospital em coma, ainda tentava, inutilmente, unir o grupo e resgatar a chama inicial. Além da seca criativa que assolava a banda, surgiam outros problemas, como as disputas de ego entre os integrantes, o que gerou frequentes brigas de socos entre eles. Problemas comuns de bandas mega-estelares também ocorriam, como prisões por desordem pública, testes de paternidade, destruição de quartos de hotéis, culminando numa detenção de 5 minutos na salinha do supermercado do Shopping João Pessoa por suspeita de furto de um desodorante Avanço. Uma Yoko Ono dos pampas também apareceu para desestabilizar ainda mais a outrora forte amizade do trio. Não é preciso acrescentar que os três, com exceção de Iranói e Tejo, foram reprovados no colégio aquele ano. Sentindo o clima insuportável depois que Iranói acusou-o durante um ensaio de não conhecer mais que três acordes, o guitarrista Djegovsky, magoado, resolveu se retirar antes que fosse anunciada a sua humilhante expulsão do grupo.

Fãs sem ingresso protestam


Os The Seven Boys não faziam mais shows independentes, mas seguiam em participações especiais em shows da Ultramen no Porto de Elis toda semana. Nesse meio tempo, o substituto de Djegovsky foi contratado, e Tarso Wantiucullero fazia participações estrambóticas no palco, antes que pulasse dele dando um mosh no vazio. Enquanto isso, no Julinho, berço do grupo, já começavam a ser esquecidos, e os jovens, sedentos por novidade, partiram para a onda grunge e as camisas de flanela e as guitarras lentas e vocais modorrentos. Depois de meses de separação, Djegovsky foi convidado a voltar à banda no auge da sua decadência. Mas era tarde para a recuperação. The Seven Boys fez o último show lá onde tudo começou: no coreto da praça do colégio Julinho, pra um público escasso de meia dúzia de metaleiros bêbados, outra de hippies chapados e 1 tio do churros. Daiane Lopes, uma testemunha ocular da época e conhecida groupie, relata este último show com indisfarçável nostalgia e não evita as lágrimas nos olhos:
"Estavam lá eles no coreto, mais velhos, mais inchados, meio apalermados. Um deles, não lembro qual, usava uma bermudinha de lycra verde-limão e uma bandana da hello kitty na cabeça. Para abrilhantar o espetáculo, convidaram um cara de nome Saddam, um surfista que usava óculos escuros apenas à noite, para ser o vocalista principal. Lembro que fizeram um cover de Beat it, do Michael Jackson, que foi simplesmente a coisa mais sofrível que já ouvi na minha vida. Mas enfim, eles eram boa gente."

E foi o Fim de uma Era.
Só restou o camarim vazio


EPÍLOGO:
Tejo - Após o fim dos The Seven Boys, partiu para um duo eletrônico-pornô-pop com Fred Endres (hoje também conhecido como DJ Chernobyl). Foi para São Paulo e dali para a carreira internacional como produtor musical, autor de trilhas para cinema e membro dos grupos Instituto e do Turbo Trio, trabalhando com BNegão, Sabotage e outros.  Natural de Novo Hamburgo. Mora em São Paulo.

Iranói - Tentou sobreviver com a fama herdada dos The Seven Boys por alguns anos, e se lançou em carreira solo em bares e em águas estrangeiras, em restaurantes de cruzeiros pelo Caribe. Ainda seguiu como animador de bingos por alguns anos, até ganhar sozinho na Lotofácil, se aposentar e se estabelecer em uma praia remota. Natural de Itajaí. Mora em Florianópolis.

Tonho Crocco - Entrou para o Livro Guinness dos Recordes como o músico com mais participação em bandas simultaneamente, quando chegou a ser membro de 13 grupos. Segue carreira solo até hoje, e recentemente ressuscitou, com sucesso, a Ultramen,

Tarso - Baterista e advogado nas horas vagas, pai de família e seis filhos. Livrou-se das drogas em nome de jesus, mas nunca abandonou seu vício maldito por rock progressivo e Roupa Nova.

Djegovsky - O único remanescente que não seguiu a carreira musical, para o bem de todos. Entrou em depressão profunda depois do fim da fama e buscou a carreira de crimes, que infelizmente nunca foram descobertos, o que só piorou as coisas. Escreve resgatando a memória da cultura brasileira no Só Mais Um Blog.

PS: Se alguém tiver alguma memória envolvendo a banda e seus integrantes, me escreva que eu adiciono ao texto.

6 comentários:

  1. É isso que admiro no Paulo Coelho: pode ser um merda, mas leva o leitor até a última linha.
    Meu Nobel é só questão de tempo.

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  2. Muito bom!!!!
    Eu tenho a impressão de que a Cibele tocava bateria com vocês neste show do Julinho, não?

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  3. Rafaela, realmente não me recordo de quem tocou bateria nesse show. Mas a essa altura, depois de 20 anos, o que vale são as memórias, não os fatos, então pode ser que sim. ; )

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  4. Que momento...agora só falta umas fotos as galera no coreto! Flashback total!!!

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  5. Aline Tolentino, acho que foi tu que sentou do meu lado outro dia numa sala de espera. Mundo pequeno!

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