6 de abril de 2012

Uma visita à Igreja de Cientologia


É com decepção,  desalento e frustração que trago o resultado da minha mais recente incursão pelo jornalismo investigativo de meia tigela. Para quem não sabe, planejei uma visita a uma Igreja de Cientologia depois que recebi um convite para um teste de personalidade e QI lá.

A Igreja de Cientologia, fundada há cerca de 50 anos pelo escritor de ficção científica americano L. Ron Hubbard, ganhou a mídia há alguns anos depois que algumas celebridades hollywoodianas  (Tom Cruise, John Travolta) admitiram frequentá-la.  A partir daí, como tudo o que é desconhecido, a Cientologia ganhou as páginas dos jornais descrita como uma seita bizarra e misteriosa. Discos voadores, extraterrestres, negócios escusos, tráfico de pessoas e ainda a esquisitíssima história de Xenu, o ditador da Confederação Galática, que, há 75 milhões de anos veio numa espaçonave e aniquilou a vida humana no planeta Terra.
Tom Cruise

Então fui lá.

John Travolta
Em nada o prédio lembra uma igreja, e sim uma empresa de tecnologia com uma decoração asséptica, mas no limite do brega modernoso, numa fachada cinza e azul envidraçada com telas de tv do lado de fora passando um documentário ininterruptamente. Lá dentro, só poderia esperar pessoas estranhas de olhos arregalados, malvestidas, e com um olhar sedento por vítimas do seu discurso fundamentalista, algo como uma versão melhorada de um ativista ciclista vegano.

Quem me recebe, calma e simpática, é uma coreana sorridente (mas não demais) de tailleur e salto alto. Explico que recebi um convite para o teste e fiquei curioso em conhecer mais a Igreja. Ela logo me indica um lugar pra sentar e me dá o teste de personalidade: cerca de 180 perguntas em que devo escolher, entre 1 e 5, a resposta que mais se pareça comigo. Perguntas de todo o tipo, desde” você fala devagar?”,  passando por 
“você tem a voz monótona?” e “você acha que mais dinheiro deveria ser empregado em previdência social?” até “a ideia de infligir dor a animais o afasta de atividades como caça e pesca?”
 L. Ron Hubbard, figuraça
fundador do esquema

Durante o teste, chega um casalzinho de estudantes universitários. Chegam com um ar de falsa inocência que logo delata que estão ali para tirar um sarro e depois relatar aos amiguinhos, com um ar de espertos e aventureiros intelectuais, sua experiência bizarra .  Mais ou menos a mesma coisa que fui fazer lá. Ainda tentando me concentrar no teste, estico o ouvido [nossa, essa figura ficou feia demais] para conferir se minha suspeita estava correta. Sim, estava. Sem perder muito tempo  já perguntam para a moça coreana a relação da cientologia com extra-terrestres e etc. Ela, boa atriz, se mostra supresa com essas associações. Também mencionam Xenu, o ditador intergalático. Recebem como resposta um franzir de cenho (aparentemente sincero)  da asiática. Depois ela diz: Ah, não, Xenu é um personagem de ficção, dos livros de Hubbard, só isso. O casal (de péssimos atores) se mostra surpreso: Aaahhhh, de ficção! Então ele não existe?  A coreana: Não, não existe, quer dizer, pode existir, para alguns, afinal cada um tem sua verdade. A resposta enigmática deixa os dois um tanto desconcertados, e logo se despedem satisfeitos. Um homem se levanta de uma mesa do fundo e vai até a moça elogiá-la pelo modo como lidou com o casal. Ela sorri e só agora noto como é bonita.


Estou terminando meu teste (“você se interessa pelas conversas dos outros?”) e faço um sinal. Ela pega minhas respostas e me pede que assista a um DVD. No curto vídeo, tenho, pela primeira vez, alguma vaga ideia do que é a Cientologia (fiz questão de não ler nada sobre ela antes de vir: chegando virgem, imaginei que teria uma experiência mais intensa). O vídeo explica que tudo o que vemos e fazemos, todas as nossas memórias e experiências, ficam registradas no cérebro, mesmo que não nos lembremos delas. Essas memórias inconscientes vão moldar a nossa personalidade, afetando todas as nossas decisões subsequentes,  influenciando, inevitavelmente, a nossa vida (opa, esse conceito aí é novidade, hein?). A questão é que as experiências negativas, segundo o vídeo, vão nos afetar negativamente. E aí perguntam: “E se pudéssemos apagar essas memórias?” O que dá a entender então é que, se isso for possível, seremos mais capazes, menos limitados e, portanto, mais felizes.

Isso me pareceu muito mais psicologia aplicada à autoajuda que uma religião ou seita.

Coreana
Ela me chama, com o resultado do teste.  O folha que ela imprimiu mostra um gráfico com 18 aspectos opostos, como feliz/deprimido, certeza/incerteza, agressivo/inibido, ativo/inativo e outros. O gráfico apresenta uma pontuação de -100 a +100, e aponta onde me encontro (na feliz/deprimido atingi a nota mais baixa -100; na agressivo/inibido, minha mais alta +55). Ela comenta, articulada e paciente, cada um dos aspectos, e faz algumas perguntas e conta histórias suas que possam ilustrar melhor o que está dizendo. Em seguida, mostra o livro da Cientologia que eu deveria ler  baseado no meu resultado.

Cruise pulando no sofá da Oprah
com o sapato sujo
Levantamos e a sigo até um outro ponto, onde me mostra os outros livros da Cientologia. A Bíblia deles (Dianetics) é um calhamaço de trocentas páginas, mas há outros tijolos também, além de dezenas de polígrafos. A Cientologia, como toda religião, é baseada em muita leitura.

Sua linguagem corporal (perna direita apoiando o peso do corpo, tronco levemente inclinado para trás, lábios que se comprimem, olhos que piscam com mais frequência) me  indica que já é hora de eu ir. Ainda digo, lembrando do vídeo, que não tenho certeza se concordo com a tal eliminação das memórias das experiências ruins, afinal elas não necessariamente contribuem negativamente, e podem também contribuir para moldar nossa personalidade dependendo da maneira que lidamos com elas. Ela responde que não é “eliminação”, mas “transformação”. Ainda tento replicar, e ela, de novo, vem com aquela resposta enigmática (pois vaga) de que “o que pode funcionar para um pode não funcionar para outro, e o que pode ser verdade para um pode não ser verdade para outro”. Na saída, ela me dá dois DVDs.

Meus presentes
Fico pensando na minha própria decepção ao chegar em casa e não ter trazido qualquer material interessante para debate, nem sequer uma crítica sarcástica pra diversão dos amigos. Percebo que  o papel de inquisidor não me cairia bem, até porque simpatizo com a moça nos seus esforçados estudos de autoajuda. Sairei de mãos vazias. Onde estão a bizzarice e os exageros? O fanatismo? “Eles só querem seu dinheiro!” Sim, mas quem não quer? Denunciam que os níveis mais altos da Igreja são protegidíssimos, cheios de segredos. Mas não é assim com a Igreja Católica ou com qualquer grande empresa também? Dizem que os convertidos agem de maneira esquisita (John Travolta beijou um homem, Tom Cruise pulou no sofá da Oprah. Steven Seagal virou guitarrista de blues*. Nossa, onde é que vamos parar num mundo em que celebridades acham que suas vidas privadas são mais importantes que as suas carreiras em Hollywood?). Não será o olhar autocentrado do ocidental cristão (ou ateu) o que torna a Cientologia tão exótica? “Cobras falantes e Arca de Noé tudo bem, mas discos voadores já é demais!”. Começo a pensar que as críticas à Igreja de Cientologia dizem bem mais sobre seus críticos do que sobre ela própria. Ou será que nesses minutos em que fiquei no local já sofri uma lavagem cerebral profunda perpetrada por alguma mensagem subliminar maligna? Bem possível.

Resultado do meu teste







*Na verdade Steven Seagal não tem nada a ver com Cientologia, mas achei importante dar a notícia.

5 comentários:

  1. Conheço a Dianética desde há 25 anos (1987), e interesso-me pelo percurso da “Igreja de Cientologia” a meu ver e com desagrado muito atribulado. Cheguei mesmo a auditar após um curso de Dianética algumas sessões naquela data, na academia portuguesa de então como “staff member” que se situava na zona do Saldanha em Lisboa.
    Apesar da hostilidade e do redicularismo que circula na net sobre a cientologia e a obra de L.Ron Hubbard, ainda hoje a recomendo a amigos.
    Lavagem cerebral? Não, pelo contrário: é o único livro que conheço que ensina a existência das técnicas do hipnotismo, as condena e advertindo dos perigos do seu uso, fornece as metodologias necessárias e eficazes de auto-ajuda para protecção pessoal que na prática liberta qualquer indivíduo de quaisquer cargas hipnóticas de que foi alvo durante a vida.
    Neste processo a Dianética demarca-se antagonizando com a psiquiatria da qual também não conheço muitos sucessos em pacientes que lhes devolva as capacidades racionais.
    Quanto à personalidade, não conheço outra metodologia religiosa ou científica que liberte o individuo para comportamentos e pensamento próprios. O livro de Dianética é uma visita guiada ao universo próprio de cada um. Também admito, não funcionar com qualquer pessoa, e muito menos com quem tenha compromissos decorrentes não compatíveis.
    É a minha opinião.

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  2. Olá Rogoneto,
    Bom saber que, mesmo escrevendo o relato sem qualquer intimidade com a Cientologia, não fui corrigido em nada por alguém que a conhece mais de perto.

    PS: Não faço ideia de onde seja a zona do Saldanha em Lisboa pois nunca fui a Portugal, mas gostaria muito de conhecer.
    abç

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  3. Olá Djegovsky,
    Quero saudá-lo pelo seu benefício de dúvida quanto à minha resposta positiva em relação à cientologia. Na verdade o meu post teve apenas o objetivo de um breve testemunho de oportunidade para si e para o público em geral que nos lê, de não deitarem no lixo aquilo que poderá ser extremamente valioso, para a vida própria ou até de toda a comunidade humana.
    A obra de L Ron Hubbard a meu ver mudou a sociologia do planeta das décadas de 60 em diante embora sempre fechada num sigilo das academias “filosófico-religiosas” nas quais nos era vedado tanto quanto constatei aos “staffs members” declarações públicas ou divulgação aos média (jornalismo). Não que se praticasse algo que não se pudesse conhecer ou saber. Pelo contrário o trabalho de pesquisa permanente por todos os materiais à disposição eram na altura um enriquecimento a rítmo de campeão.
    Desde dos anos 90 que não conheço de perto o funcionamento interno da cientologia e admito constatar que muita coisa não funcionou nem funciona bem ou do agrado de todos os membros ou seus adeptos.
    Haverá fundamentalismos, radicalismos como há em todas as associações religiosas, filosóficas e científicas. Contudo os livros publicados com marca registada e direitos de copyright repito são valiosos. A forma como se os usam e se aplicam terá de ser com muita ética e responsabilidade porque na verdade tornam as pessoas muito mais capazes.
    Não fiz qualquer correção ao seu texto por não ser esse o objetivo do meu post que apesar da sua declarada deceção à visita à igreja, acaba por despertar-lhe alguma simpatia.
    A praça Duque de Saldanha em Lisboa pode visualizá-la neste link http://showmystreet.com/ showmystreet interessante, dá para qualquer rua do planeta, contudo a cientologia em Lisboa situa-se atualmente noutra zona da cidade. Como disse atraz desde os anos de 90 que não a visito.
    Deixo-lhe alguns links de notícias negativas sobre Cientologia e também um testemunho positivo que me parece interessante conhecê-lo.
    Rogoneto, é um pseudónimo nickname para a net, o meu nome próprio é Rogério, mas pode continuar a chamar-me da mesma forma, não altera em nada a a minha personalidade.
    Aqui vão os Links negativos:
    França confirma sentença por fraude contra Igreja da Cientologia http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5590405-EI294,00-Franca+confirma+sentenca+por+fraude+contra+Igreja+da+Cientologia.html Cientologia em França
    Tribunal russo proíbe Cientologia http://portuguese.ruvr.ru/2012_03_23/69400953/ Cientologia na Rússia
    Link neutro: A verdadeira ciência por trás da cientologia http://evoluciencia.blogspot.pt/2012/01/verdadeira-ciencia-por-tras-da.html Fonte: Scientific American
    Um testemunho positivo: http://portalautoralmundial.com/literatura_10.html MELHORAMENTOS de VIDA
    Com consideração,
    abç.

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  4. Rogério, agradeço as contribuições. Visitei a praça Saldanha pelo site. Lisboa parece merecedora de uma visita.
    abç

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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