8 de janeiro de 2012

Em teu seio ó liberdade

Estou comendo num restaurante etíope, tomo um gole dágua para aplacar a forte pimenta. À minha frente, uma mulher com uma criança (não um bebê, pois caminha e fala) comenta sobre comida vegetariana. Lá pelas tantas, ela lentamente baixa a alça esquerda da sua blusa, e a observo. Para minha surpresa, continua baixando até revelar um grande seio que, balouçante, fica exposto apontando para mim. Puxando a criança  para perto de si, ela ajeita o seu seio, colocando uma das mãos por baixo dele, revelando toda sua maciez. A criança, mesmo sonolenta, abocanha automaticamente o mamilo, dando início ao processo de sucção.



Eu iria descrever a minha reação como: Com o garfo suspenso entre o prato e a minha boca entreaberta, olho fixamente para aquela teta, por mais que saiba que não deveria fazê-lo, mas não se costuma usar garfos em restaurantes etíopes. Imediatamente tento agir com naturalidade, mesmo sabendo que uma mulher está de seios de fora sentada à minha mesa. Busco a pessoa ao lado (sim, há outros comensais) e comento também sobre a comida, destacando que meu prato preferido é o com cogumelos grelhados. Mas meus olhos, mais rápidos que a minha discrição, se voltam para a cena inicial novamente, e a situação se repete, pois tento manter a conversa como se nada estivesse acontecendo ao mesmo tempo em que testemunho o ato de alimentação infantil. Até que ela me pergunta, sorrindo: Você se importa? Sem problema, tenho vontade de responder, afinal somos todos adultos, e a amamentação pública deve ser encarada com toda a naturalidade, e até mesmo incentivada, principalmente em restaurantes, que são locais próprios para a nutrição mesmo, então vá em frente!

Mas a verdade é que, por mais que tente, não consigo encarar isso com naturalidade. E duvido que outros homens consigam. O fato é que nós, homens, consideramos o seio um órgão sexual.  Sim, assim como a vagina e a bunda. E sim, também, o pênis. Imagine se, no restaurante, por uma razão qualquer, resolvo abrir meu zíper e colocar o meu para fora? Digamos que, em alguma cultura, coçar o saco escrotal publicamente seja algo totalmente aceitável e os homens não tenham pudores em fazê-lo? Pelo contrário, se alguém ficar constrangido deve ser repreendido, pois certamente não compreende essa tão natural atividade. Como você, mulher, se sentiria? É como nos sentimos quando vocês expõem seus seios ao ar livre, à vista de todos.


Num artigo do jornal canadense Vancouver Sun, Shelley Fralic escreveu uma coluna sobre isso. Diz ela que esse assunto:

Diz respeito à capacidade invividual de lidar com uma situação e empregar o bom senso básico e o respeito pelos outros. O mesmo tipo de respeito que diz que não devemos usar biquíni num funeral ou dizer palavrões na frente da vovó ou usar chapéu à mesa ou caminhar nu pelo playground das crianças.

Ela escreveu isso depois que uma mãe foi convidada a se retirar de uma loja de móveis por estar amamentando. Mas pra mim este não é o ponto. Jamais vou censurar mães por amamentarem na minha loja (se um dia eu tiver uma, claro) nem vou dizer que devem evitar isso a qualquer custo. Afinal de contas, a criança precisa comer. A questão é que não conseguimos dessexualizar os seios. Que as mulheres que amamentam publicamente fiquem sabendo:
Seios serão sempre seios.

1 comentários:

  1. É uma ótica absolutamete masculina com certeza!Pra nós mulheres, seios são apenas glândulas mamárias; e a dessexualização é gritante. Se não o fosse terímos orgasmos no ato de amamentar ou de parir um filho por método natural,,,,
    Bj

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